Livros de Luiz Otávio Dobal

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Duas Formas de Dizer

Duas Formas de Dizer- O Duende é um livro publicado em parceria com o poeta Paulo Roberto Cecchetti, onde o autor apresenta crônicas divertidas  e Cecchetti  poesias sensuais.

Abaixo o trecho de uma das crônicas.

Os livros podem ser adquiridos na Livraria Asabeça ou pedidos por e-mail.

CENAS DE CIÚME E HORROR

O ônibus estava cheio. Não chegava a estar lotado, mas haviam algumas pessoas em pé. Odeio andar de ônibus. Estava sentado na ponta a minha direita, na janela, minha mulher. A esquerda, em pé, uma morena de minissaia e aquele maldito par de pernas, encostados no meu ombro. Não tenha a impressão de que não gosto, é que você não conhece a ciumenta da minha mulher. Meu olho esquerdo acompanhava o par de coxas, ambos nervosos (meu olho e as coxas da morena), o meu direito percebia uma fumaça saindo das narinas da minha mulher. Todo mundo que viaja na janela procura observar a rua, o movimento. Mas minha mulher só observava a morena. Quando a segunda gota de suor desceu por minha testa, aconteceu. A morena num gesto rápido, curvou-se e sussurrou em meu ouvido. Foi o bastante. Como se tivesse acionado uma mola, minha mulher levantou-se, a morena voltou a posição ereta no exato momento em que minha mulher acertou-lhe um direto no nariz. A gota de suor não tinha chegado ao meu queixo e a confusão estava armada. Abriu-se um clarão no corredor do ônibus. Odeio andar de ônibus.

- Para motorista, que aconteceu uma tragédia - gritou um baixinho com um olhar que misturava morbidez e curiosidade.

O motorista encostou o ônibus na calçada e parou. Eles nunca param quando eu peço. Uma senhora na minha frente, toda de preto, puxou um terço e começou a rezar. Minha mulher gritava:

- Vagabunda, dando em cima do homem dos outros, sem vergonha.

O baixinho instigava:

- Ela tá morta, tá morta, tô vendo sangue nas pernas dela, ela se cortou e morreu.

O ônibus todo gritava e apontava para mim. Parecia que eu tinha dado o soco. Odeio andar de ônibus.